não me sinto uma pessoa comum. nunca me senti. sempre achei que era diferente, a forma como eu penso, como ajo e interajo com as pessoas, a forma como encaro a vida e o mundo. não o faço da mesma forma que a maioria das pessoas. enxergo com o coração praticamente tudo o que me rodeia. dificilmente consigo ser racional ou quase nunca. coloco o coração em tudo o que faço, e por isso me afogo em tristeza tantas vezes.
de vez em quando paro no tempo e esqueço que há um mundo lá fora para descobrir, que existem pessoas ao meu redor. paro e tento olhar para mim como se estivesse a olhar para alguém pela primeira vez. olho e não gosto do que vejo, ou então gosto muito. vivo no meu mundo e não abro a porta para quase ninguém. porta essa que esteve durante muito tempo escancarada. já não. perdi a fé no ser humano, no lado bom das pessoas, mas por inocência ainda o procuro. procuro e observo apenas, porque agora tenho medo de abrir aquela mesma porta que falei anteriormente. é incoerente, eu sei. não falo muito, mas penso tanto. se falasse tudo o que penso provavelmente seria mais feliz ou talvez não. se falasse mais talvez ganhasse mais... amigos por exemplo. há momentos em que digo que os que tenho conto pelo dedos, mas há outros em que me sinto como se não tivesse nenhum. é injusto para com eles e para comigo, talvez. ainda há tanta coisa que quero descobrir, tanta coisa que quero sentir para saber como é, ou se não é, e a amizade é uma dessas coisas. exijo demais das pessoas, talvez seja esse o problema. exijo porque também dou demais, dou de forma exaustiva e canso-me, desânimo por não receber da mesma forma. talvez até nunca receba, talvez nunca entenda, o que eu quero dizer, o que eu sinto, a forma como amo e como me entrego de corpo e alma. talvez. talvez ame tanto e por isso amo tão pouco. o meu coração não tem espaço para o mundo, porque se tivesse, ele lá estaria. não sou uma pessoa comum, pelo menos aos meus olhos... não sei como vai ser o futuro, nem sei se o terei, mas se houver essa possibilidade só quero ter uns trocos no bolso e passar o tempo com os que amo. não quero saber das polêmicas que o meu país alimenta, da corrupção política ou quem está ou não na primeira divisão do futebol português. quero aproveitar, quero mais do que isso viver e sentir que estou viva. algo que é tão simples mas sinto tanta dificuldade em fazer.
sinto uma constante vontade de fugir. da poluição que se sente a nível social, da mesquinhez das pessoas, do egoísmo. sinto uma constante vontade de ser livre, de me sentir livre, em paz. não o sinto, na maior parte do tempo.
quero ser capaz de me apaixonar pelas coisas da vida, de ser feliz com muito pouco e captar essa mesma magia que passa despercebida a praticamente toda a gente.
sinto-me diferente e acho que ainda que há tanto sobre mim para eu aprender e descobrir. sou um ser confuso, eu sei.

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"não se pode, ao mesmo tempo, ser sincero e parecê-lo."